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Para mães e pais 
em fase de crescimento.

A música na vida dos meus filhos, meus filhos na minha música

Negra Li NL
ter, 01/06/2021 - 10:17
Dentro de um lago, a cantora Negra Li, ilustra a importância da música para crianças. Ela está segurando um filho no colo e em frente está sua outra filha.

Em uma das minhas aulas de música, meu professor contou que, antes de mostrar qualquer coisa ao seu filho pequeno, ele dizia: “Ouve isso filho”. Ele tentava fazer com que a criança identificasse as coisas através do som. Por exemplo, antes de mostrar um carro, ele dizia “Tá ouvindo esse barulho? É do motor do carro”, e em seguida mostrava o carro.

Achei aquilo fantástico e muito curioso. Ele acreditava que fazendo aquilo a criança desenvolveria melhor sua audição, principalmente para a música. Além disso, poderia ajudar no controle de ansiedade.

Bem, conheço os filhos dele, hoje crescidos, e posso afirmar que realmente funcionou! Vocês acham que testei com meus filhos? Sim ou com certeza?

Por que incentivo a música na vida dos meus filhos?

A música já faz parte da vida dos meus filhos. Tenho essa preocupação desde a minha gravidez: eu cantava para eles, enquanto alisava minha barriga, colocava fone de ouvido na barriga. Tinha música para todos os momentos.

Sei que a música é importante para a coordenação motora dos meus filhos, a alfabetização, a memorização e contribui muito pro desenvolvimento deles.

Além disso, acredito que a música tem uma linguagem universal: todos falam a mesma língua quando se trata de música. Ela alcança a todos sem diferenciar raça, condição social, faixa etária. Está presente em todas as sociedades. Se tivesse aula de música nas escolas viveríamos em uma sociedade melhor.

Como a música é o meu trabalho, gosto de ir além, fazendo com que estudem desde cedo, para estarem preparados caso resolvam seguir os meus passos. E olha que talento não falta (rsrsrsrsrs).

Eu tenho muita curiosidade em saber como será futuramente para eles, mas vivo um dia de cada vez, respeitando o tempo. Acredito que é melhor ser amigo do tempo já que ele é infalível.

Falando no tempo, deixa eu voltar um pouquinho: como a música mudou a minha vida

Tenho muitas e variadas lembranças musicais: os sambas de Adoniran Barbosa, interpretados pelo meu pai, que era músico e tocava saxofone na igreja, e os hinos religiosos entoados pela minha mãe enquanto fazia os trabalhos domésticos, me arrepiavam na alma.

Ainda tinha as fitas cassetes que eu ouvia no walkman do meu irmão – Legião Urbana, Racionais, Jamiroquai e mais um monte de músicas da época, construindo minha identidade musical. Nas rodas de amigos na rua, Planet Hemp e eu cantava músicas do Gabriel Pensador e da Whitney Houston.

Quando eu tinha 16 anos, a música passou a ser o meu trabalho. Isso me ajudou a superar desafios na adolescência: eu podia colocar pra fora minhas ideias e desabafo. E ainda ajudava distrair a mente para não sentir o peso de uma infância e juventude cheia de dificuldades, vivendo na periferia de São Paulo num bairro da zona norte considerado um dos mais violentos da cidade.

Muito jovem, fiz parte do RZO, um dos grupos mais importantes do movimento hip hop na década de 1990. Virei referência para outros jovens como eu. Fico emocionada toda vez que sou abordada e ouço um “obrigada por transformar minha vida” ou “a sua música mudou minha vida”.

Eu sei bem como eles se sentem, porque a música mudou a minha vida também. Fazer parte de um movimento tão importante como o hip hop, que contribui tanto para a formação e educação de jovens, é muito gratificante.

Com vinte e poucos anos, entrei para o coral da Universidade de São Paulo (USP). Foi meu primeiro contato com estudo musical, essencial na minha formação como artista.

A música na vida dos meus filhos

Tudo isso mudou a minha vida. E a vida dos meus filhos, por consequência. Meus filhos vivem uma infância com uma realidade bem diferente da minha.

Hoje, graças à música, tenho condições melhores que a dos meus pais quando eu era criança. Consigo proporcionar a eles coisas que não tive, ao mesmo tempo que valorizo o que meus pais me deram e cada conquista que obtive até hoje.

Sofia, uma nova geração

Sofia, minha filha de onze anos, ama música. Me lembro como se fosse hoje de cantar pra ela ainda na minha barriga a música dos tribalistas “Velha infância”, de viajar pro México grávida de 4 meses dela, pra gravar clipe com o Akon, sem contar a quantidade de shows que fiz com ela ainda na barriga. Hoje é ela quem me deixa inteirada sobre as novidades, dos mais diferentes estilos musicais. Acho incrível o quanto eu aprendo com ela, amo essa troca.

Sofia já participou de alguns clipes meus, inclusive do meu mais novo lançamento “Comando”. Convidei ela não só por ser minha filha, mas por eu acreditar na potência dela como representante de uma geração promissora e revolucionária. Ela canta e encanta, dança, desenha bem, faz aula de teatro musical, aula de culinária e diz que quer fazer cinema quando for pra faculdade.

Eu incentivo e dou todo apoio aos sonhos dela, fazendo o que posso para dar conforto e condição para uma boa base de educação. Quero que ela se sinta capaz e livre pra fazer qualquer coisa que quiser, quero que ela sonhe alto.

A Sofia já me disse que quando se sente triste ouve Billie Eilish. Vocês já ouviram? É uma cantora que conheci e aprendi gostar através dela, e acho que é uma das mais lindas vozes da atualidade. Sofia também se emociona ou se decepciona com as letras de alguns artistas, quando busca a tradução.

E dessa forma ela vai se encontrando também, fazendo a trilha sonora da sua própria vida, assim como eu: colecionando memórias, buscando conforto e respostas através da arte. Eu acho brilhante essa sensibilidade e meus olhos brilham quando eu a ouço falar sobre algum despertar ou descoberta através da música.

O ouvido minucioso do Noah

O Noah vai fazer quatro anos, também ama música. Sinto que ele tem um ouvido minucioso. Digo isso porque cansei de ver ele replicar linhas de baixo, caixa da bateria, linhas de sopro de uma canção e se emocionar quando a melodia é mais melancólica.

Ele adora ouvir e ver Michael Jackson, dorme com músicas relaxantes, pede pra eu cantar no banho, inventa músicas e isso faz parte do nosso dia a dia.

Os meus filhos na minha música

Sofia Kymani e Noah Malik vieram pra mudar a minha vida pra muito melhor. Me sinto privilegiada por ter a oportunidade de conviver bastante com eles.

Na pandemia, nossa relação tem se fortalecido ainda mais. Definitivamente, não é fácil conciliar a maternidade e o trabalho, mas não tem recompensa melhor que receber todos os dias doses elevadas de amor incondicional.

O meu novo disco, por exemplo: foi um desafio e tanto produzi-lo e escrevê-lo nesse “novo normal”. Tivemos que adaptar muitas coisas, muitas reuniões tiveram que ser online… foi desafiador e, ao mesmo tempo, fortalecedor. Eles participaram de tudo, eles me inspiram muito. Muitas músicas que escrevo falam deles e da relação que temos. Este momento foi importante pra olhar pra dentro, pra rever conceitos, quebrar tabus, adaptar as regras da rotina familiar, enfim não tinha como não ser inspirador.

Contar com o apoio das crianças foi crucial. Eles foram maravilhosos nesse meu processo criativo, entendendo as minhas faltas, me dando carinho. O Noah, muitas vezes, ao me ver cansada oferece massagem nos pés. A Sofia sempre me pergunta como foi meu trabalho e fica atenta a cada detalhe.

A cada música pronta, eu faço questão de mostrar pra eles e saber a opinião deles. Eles são o meu termômetro pra saber se a música será um hit. E, olha, a Sofia é muito exigente! Então se ela gosta, já fico extremamente feliz e aliviada.

E eu? Bom, a Liliane é uma mãe leoa que sofre quando precisa se ausentar, que se culpa, se cobra, chora, quer ficar em casa a maior parte do tempo com as crias debaixo de suas asas. Já a Negra Li traz a coragem, a força, ela quer explorar o mundo, quer fazer turnê na Europa, quer se aventurar.

A junção dessas duas personalidades, com meus dois amores Sofia e Noah, me faz ser quem eu sou, me ajuda a dar continuidade e a crescer cada vez mais.

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