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Para mães e pais 
em fase de crescimento.

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Ninhos do Brasil + Carochinha Editora: Ninhos do Brasil se uniu à Carochinha Editora, selecionando histórias que auxiliam nas questões enfrentadas em diferentes fases. Confira!

Pai solo: desafios e aprendizados de criar os filhos sozinho

Ninhos do Brasil NB
seg, 12/09/2022 - 10:00
Imagem de um pai solo pintando com esmalte vermelho as unhas de sua criança. Ela está com a mão apoiada sobre uma mesa

Temos que admitir: falar sobre os desafios do pai solo, o homem que assume o papel de cuidador principal dos filhos, foi desafiador também para nosso time de redação. O motivo: a dificuldade de encontrar pais solteiros para darem seu depoimento. 

Todo mundo conhece várias mães solo, mas você já se perguntou quantos pais solo já conheceu? Quantos colegas dos seus filhos têm o pai como cuidador de referência?

Eles podem ser um pouco mais difíceis de encontrar, mas damos fé: os pais solo existem, se esforçam para dar aos filhos o melhor cuidado e aprendem diariamente junto a eles, como pais em crescimento que são. 

Conversamos com dois pais, o Marcus Vinícius e o Valter, que, mesmo tendo histórias bem diferentes, vivem com os filhos a mesma aventura de amor e aprendizado, que você conhecerá a seguir.

Pai solo ou pai solteiro?

Termos como mãe solteira e pai solteiro são conhecidos há muito tempo, mas caíram em desuso com o avanço das discussões sobre parentalidade. Afinal, a parentalidade não é um estado civil, não é mesmo? Estamos aprendendo que o que torna um pai ou mãe solo é a condição de ser inteiramente responsável pelos filhos – o que não tem relação com o estado civil. Então, qual é a forma correta de se referir a um pai que cria os filhos sozinho? A maioria ainda fala em pai solteiro, outros preferem pai solo. Não há uma forma errada, o importante é compreender quando um rótulo deixa de fazer sentido e tentar desconstruir o costume. Na dúvida, pai é pai. 

Por que é tão mais difícil achar um pai solo que uma mãe solo?

Antes de conversar com esses pais, consultamos a advogada Rita Braun, que trabalha com Direito de Família há 10 anos. Segundo Rita, nesta década de atendimento a mães e pais em processo de separação, ela viu apenas cinco casos em que a residência-base dos filhos foi fixada com o pai. 

Mas qual seria a razão disso? A advogada explica que essa predisposição a deixar as mães como cuidadoras principais após o divórcio não tem nada a ver com o texto legal, e sim com a cultura. 

“Eu não diria que é um padrão dos juízes fixar a residência da mãe como base, mas diria, sim, que é comum que o pai não tenha interesse em manter sua casa como a base de residência dos filhos. Na prática, uma infinidade de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento. 

Da mesma forma, há uma infinidade de crianças sem que o pai arque com o seu sustento, ou que somente recebem pensão alimentícia por força de decisão judicial. São incontáveis os casos em que os pais não mantêm vínculo e convivência com os filhos.
 
Enfim, a prática nos mostra que às mulheres é dada a obrigação de maternar os filhos, enquanto aos pais há quase que um perdão tácito pela ausência, afinal, quem nunca ouviu frases como: ‘Filho é da mãe’, ‘Quem pariu que embale’ etc… Assim, eu acredito que o padrão de deixar os filhos com a mãe não é dos juízes mas, sim, da sociedade em geral
”, pondera Rita.

Para aprender mais:

Vida de pai solo: Marcus Vinícius tenta ser o pai que ele próprio não teve

O músico e produtor cultural Marcus Vinícius Santana da Silva, 30 anos, pai do Amon, 1 ano e 11 meses, foi uma das milhões de crianças brasileiras criadas somente pela mãe. Filho de mãe solo, ele hoje enfrenta o mesmo desafio com seu menino. 

Marcus Vinícius conta que se separou da mãe de Amon quando a criança tinha três meses. Hoje, a ex reside em outra cidade, mas o músico diz que procura manter contato com ela, para que o filho cresça tendo essa referência.

Por trabalhar como autônomo, Marcus Vinícius pode ficar com Amon durante os dias, mas ainda assim ele alega que, para dar conta de tudo, precisa seguir um cronograma com disciplina quase militar. Acordar cedo, fazer exercícios, estudar, trabalhar, cuidar da casa, preparar e servir as refeições, brincar com Amon. 

“Os horários e prioridades variam, pois cuidar de uma criança tem os fatores imprevisíveis, em que tenho que usar toda minha mandinga e jogo de cintura para resolver. Cumprir os horários à risca exige muita disciplina, para não falhar com ele e ainda sim manter meus planos pessoais e sonhos vivos e ativos”, diz o músico. 

As mulheres da vida de Marcus e Amon: a rede de apoio para um pai solo

Nessa correria, Marcus Vinícius e Amon contam, é claro, com uma rede de apoio. “Tenho mulheres importantes na minha vida, já que fui criado com uma família majoritariamente formada por mulheres, tenho esse privilégio de apoio no sentido de instrução da parte delas”, relata.

Marcus Vinícius vê essa desconstrução de papéis sociais historicamente estabelecidos como um dos principais desafios de ser pai. “Quem me acompanha nas redes sociais me elogia pela atitude de cuidar dele, mas não sabe da metade das dificuldades e desafios que eu, enquanto homem, tenho ao assumir esse lugar de cuidado. 

Porque nos é ensinado que homem tem que trabalhar e, a mulher, cuidar da casa e das crianças. Tenho muita dificuldade em lidar com isso, sabe? Fazer com que ele entenda que homem chora, que pode ser sensível, cuidadoso, afetuoso com responsabilidade, para que ele possa crescer e ser um exemplo de homem melhor, e que eu também estou tentando ser”, diz.

Outra história que a paternidade solo desconstrói, no caso de Marcus Vinícius, é sua própria trajetória de vida. “Fui criado na ausência de um pai, já parto daí, da oportunidade de ser um pai que não tive. Quando você aceita a paternidade, entra em jogo um sentimento que nada pode te proporcionar, a não ser quando você se torna um. 

Não existe palavra para descrever o quanto me sinto feliz quando ele me abraça; ao ver ele sorrir, fico feliz junto com ele; se ele chora, parece que dói em mim. É uma conexão tão grande que não me vejo longe dele, minha vida não faria sentido longe dele”, comenta o pai coruja.

De repente, pai solo: Valter e seu aprendizado

O técnico de ar-condicionado e professor de jiu-jitsu Valter Santana, 49 anos, pai de Nick, 26 anos, e Roberto, 4 anos, tornou-se pai solo há quase três anos, por força de uma tragédia familiar. 

“Para mim, lidar com o falecimento da minha esposa não foi fácil, porque não foi algo esperado. Acho que o Robertinho até assimilou mais rápido. Para mim, cair na real foi muito difícil, eu perdi o chão, porque me vi com um filho de 23 anos e um de dois”, conta ele. 

Nick, o filho mais velho, já tinha saído de casa para morar com a companheira e, assim, a missão de cuidar sozinho do pequeno Roberto virou a vida de Valter de cabeça para baixo. “Tive que abrir mão de muito serviço, hoje não posso mais trabalhar registrado, porque eu tenho o Robertinho. Ele entra na creche às 8h e sai ao meio-dia. Então, de meio-dia em diante, eu tenho que estar em casa”, diz o pai. 

Valter conta que tornar-se pai solo exigiu que ele abandonasse o papel exclusivo de “pai provedor” para se tornar pai por inteiro, um aprendizado difícil e constante: “Do meu primeiro filho, quem cuidava era principalmente a minha esposa. Eu mais trabalhava fora. 

Então, eu tive que aprender a desfraldar, tive que aprender a alimentar, pois eu não sabia fazer a alimentação dele. Eu dava leite para ele e não sabia como fazer o leite dele. Tinha uma mulher na igreja que cuidava de crianças, então eu fui pedir uma orientação de como cuidar dele.” 

Tem a mesma dúvida de Valter e quer aprender mais sobre como desfraldar? Clique no link:

Essa rede de apoio encontrada pelo autônomo, formada principalmente pela sua mãe e por pessoas da igreja, foi fundamental para que ele se encontrasse como pai, após o falecimento da esposa. Com dificuldades para conciliar a atividade profissional com o cuidado de Roberto, além das restrições na sua própria vida social, Valter sentiu o peso da situação e conta que começou a se sentir mais triste e “depressivo”. Foi quando a ajuda das pessoas próximas fez a diferença. 

Me tornei mais carinhoso, entender mais, aceitar situações, ter mais paciência

“Eu estava muito estressado com ele, gritava muito com ele, porque eu não entendia essa parte da criança, eu não entendia isso, porque eu não tinha visto o crescimento do meu filho mais velho. Eu sempre trabalhei fora e só chegava em casa à noite. 

Então, hoje, essas pessoas que participam têm me dado essa direção, e eu tenho visto como ele tem mudado. Tenho visto como esses momentos que passei mais próximo dele me fizeram me tornar mais carinhoso, entender mais, aceitar situações, ter mais paciência”, conta o autônomo.

O principal aprendizado que a experiência trouxe para Valter foi perceber a necessidade de, como homem, envolver-se mais na criação do filho, ser pai por inteiro. Cuidar de Roberto fez com que ele percebesse que não existe “coisa de mulher” ou “coisa de homem”, bem como trouxe a necessidade de reavaliar sua participação na criação dos filhos.

“Eu sinto uma certa culpa por não ter enxergado a doença da minha esposa, não ter percebido que ela estava doente. Hoje, eu vejo essa correria e entendo o quanto ela trabalhava em casa. E ela não só cuidava do filho, ela também saía para trabalhar. E, apesar de eu sempre ter ajudado em casa, hoje eu vejo que deveria ter auxiliado mais. A rotina que eu tenho com ele, eu vejo como é difícil para mim, então eu imagino como foi difícil para ela. 

Hoje, eu vejo como é puxado cuidar de filho, não é tão simples assim. Só quem nunca cuidou acha que é simples. Então, hoje eu valorizo mais as mulheres, as mães, as esposas, pelo que elas fazem”, diz Valter. 

Esses aprendizados Valter espera transmitir também a Roberto, pelo exemplo. Essa dedicação e esse vínculo transformaram a vida do pai e hão de ser fundamentais na do filho. “Essa parte da paternidade é muito boa, mostrou na minha vida que eu posso ser gerador de um ensinamento para o meu filho, para que ele possa, no futuro, ser um bom pai.”

Uma dúvida comum: pai solteiro pode adotar ou receber auxílio do governo?

Como destacou a advogada Rita, a figura do pai solo não é muito comum na nossa cultura, por isso, muitas pessoas têm dúvidas sobre os direitos dos homens que criam filhos sozinhos.

Por exemplo, é frequente que surjam perguntas como: “Pai solteiro pode receber auxílio do governo e participar de programas sociais?” ou “Pai solteiro pode adotar crianças?”. 

Nesses casos, não há distinção de gênero. Qualquer pessoa maior de 18 anos, independentemente de gênero ou estado civil, pode fazer uma adoção, desde que se cumpram os requisitos legais. 

Do mesmo modo, famílias monoparentais (em que há apenas um cuidador) chefiadas por homens também têm direito aos programas sociais dos governos federal, estaduais e municipais. 

Por mais pais assumindo a paternidade

Assumir a paternidade, independentemente da modalidade, se pai solteiro, pai casado, pai separado ou pai viúvo, é uma questão de vontade e amor. 

O vínculo com os filhos se fortalece e se aprofunda na medida em que a convivência e o cuidado são vividos no dia a dia. Pais e filhos só têm a ganhar sendo mais próximos e envolvidos.

Deseja continuar lendo sobre os desafios de ser pai? Então, acesse o artigo: 

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