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Depoimento: Como lidei com o primeiro ataque de birra

Ninhos do Brasil NB
seg, 21/06/2021 - 10:30
Mãe consola o filho que chora e faz birra em seu colo.

Confira o depoimento da jornalista Carine Leal, mãe do Antônio, que contou sua experiência para Ninhos do Brasil!


Birra, que birra? Imagina. Antônio sempre foi uma criança calma, passamos ilesos pela tão temida crise dos dois anos, que todo mundo chamava de “terrible two” (terríveis dois anos). Eu conseguia ir com ele ao supermercado sem problemas. Mas não naquele dia.

Ele estava com três anos e meio e avistou um chocolate.
- Mamãe, compra?
- Filho, a gente não come doce em dia de semana (aliás, saudade do tempo que eu conseguia ser firme sobre isso!).
- Mas eu quero!
- Mas chocolate hoje, não. É o nosso combinado, lembra? Vamos lá escolher umas frutas? Será que tem manga e morango?
Sugeri me achando a especialista em disciplina positiva apelando para as frutas preferidas, dando escolhas. Fui surpreendida com a resposta gritada:
- Eu não queio futa, eu queio chocolaaaate!

Eu não esperava esse ataque de birra e comecei a rir, porque lembrei da música na hora “não adianta vir com guaraná pra mim é chocolate o que eu quero beber”. Eu ainda estava bem-humorada. Ia começar a argumentação, quando começou a chorar aos berros que não tinha graça e que ele queria o chocolate, que não ia sair dali sem o chocolate. Olhei para os lados, já estavam me olhando.

Respira, não pira.

Respirei, lembrei de um vídeo que viralizou de um ataque de birra de criança em supermercado que eu vi alguma vez. Respirei de novo, tentando mentalizar tudo o que já li sobre como lidar com birra.

  1. Não adianta querer explicar nada agora
  2. Gritar só vai piorar a situação
  3. Precisa acolher
  4. Ele ainda está aprendendo a lidar com a frustração.

Ele começou a me bater. Me subiu um calor no rosto. Aí entendi o que era o tal do firme e gentil (mais firme que gentil, é verdade). Parei, segurei os dois braços e falei:
- Você não vai me bater e não vai ganhar chocolate. Pode ficar triste, pode chorar, pode gritar. Eu vou pagar as compras e, se você quiser, pode ficar chorando até se acalmar.
- Eu nãããão vou me acalmar!

Pedir ajuda no momento da birra.

As pessoas na fila do caixa olhavam. Hoje acho que ninguém estava filmando ou comentando a crise de birra, mas naquela hora e na minha cabeça era exatamente o que elas estavam fazendo. Eu já estava furiosa com elas também. Falei com um tom mais irritada do que gostaria:

- Vocês se importam de me deixar passar na frente? Eu sei que prioridade é para bebê de colo, mas…

Nem precisei continuar: a fila se abriu na minha frente. Até hoje não sei se foi por empatia ou por medo de nós: Antônio seguiu berrando do meu lado e eu, com os dentes cerrados, me vi falando a frase clássica da minha mãe:
- Em casa a gente conversa.
Saímos, ele já chorando menos alto, e eu falando desculpa e obrigada para as pessoas.

Em casa a gente conversa

Fiquei na dúvida se devia ter ido embora e deixado as compras, mas resisti por questão de honra. Um lado meu sentiu orgulho de ter resistido e de ter sido firme. Às vezes não sei se sou calma demais ou se estou cansada demais pra comprar qualquer briga.

A frase que na minha época de criança chegava como ameaça de levar uns tapas, pra ele chegou de outro jeito: em casa a gente conversou. Expliquei como eu tinha me sentido quando ele gritou e bateu em mim, pedi desculpas por ter rido, mostrei a música do Tim Maia (ele amou).

Mesmo assim, as cenas de birra se repetiram mais algumas vezes – não querendo ir embora da pracinha, querendo entrar numa loja de brinquedos etc.

Continuamos conversando em casa (depois que a poeira baixa) e lendo livros sobre sentimentos (principalmente raiva). Eu aproveito para contar das vezes que eu também sinto raiva e vontade de gritar, e explico que isso não resolve nada e só piora a situação.

Parece que o jogo da birra virou.

Agora ele está com cinco anos e faz tempo que não faz birras. O último pití aqui em casa foi meu, por causa do celular (outra novela). Ele não queria me devolver.
- Antônio me dá.
- Só mais um pouquinho.
- Antônio, eu preciso do meu celular.
- Só deixa eu terminar esse jogo.
- Cheeeega! Me dá o celular agora. Criança da tua idade nem devia estar usando celular. Acaboooou. Chega. Cansei.

Ele começou a chorar, me entregou o celular, correu pro colo do pai.
- Você não é mais a melhor mãe do mundo – disse aos soluços.

Falei que foi na véspera do Dia das Mães? Pois é.
- Não sou mesmo, filho. Depois a gente conversa. Deixa eu me acalmar.

E depois a gente conversou, eu pedi desculpas pelo exagero, ele pelo celular, nos abraçamos e viramos amigos de novo… ele só não se convenceu quando eu disse que gritar não resolvia.

- Mas, mãe, você gritou e eu devolvi. Então funciona gritar.
- É, ãhmm… na hora, sim, filho. Mas olha tudo o que gerou. Você se assustou, chorou, e a gente está até agora falando sobre isso.
- Mas eu gosto de conversar, pra mim tá bom agora.

Jeito fofo de perdoar, né? Não termina nem se resolve aqui. Mas seguimos conversando.
Carine Leal é jornalista, mãe do Antônio (5) e, quando criança, esperneava aos prantos na frente das lojas de brinquedos.

Leia também: “É preciso humanizar as mães. Não somos super-heroínas” - Entrevista com a psicanalista Mônica Pessanha

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