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Para mães e pais 
em fase de crescimento.

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Ninhos do Brasil + Carochinha Editora: Ninhos do Brasil se uniu à Carochinha Editora, selecionando histórias que auxiliam nas questões enfrentadas em diferentes fases. Confira!

Criança boazinha: será que é bom mesmo?

Ninhos do Brasil NB
seg, 11/04/2022 - 10:00
Menina segurando um coração vermelho em frente ao rosto

“Ah, que criança boazinha, que faz tudo que eu peço, na hora que eu quero, sem reclamar de nada”. Parece um sonho para muitos pais e mães, não é mesmo? De fato, “crianças boazinhas” tornam a vida dos adultos muito mais fácil. Mas e a delas? Onde ficam suas vontades e opiniões?

A reflexão tomou conta da internet com o lançamento em março de 2022 da animação “Red, Crescer é uma Fera”, da Disney. A personagem principal vira literalmente uma fera ao entrar na pré-adolescência, quando sentimentos até então reprimidos explodem.

Topa entrar nessa conversa com a gente?

Red: quando a criança boazinha vira uma fera

“A vida toda eu fui a ‘perfeitinha Mei Lee’, mas parece que eu gosto da minha nova versão”, diz a protagonista em certo momento do momento do filme. 

A animação fala de dilemas da puberdade, como menstruação e relações familiares… mas também traz à tona a pergunta sobre o que estava reprimido atrás do rótulo de boa menina.

Desrotulando a infância: a criança boazinha, a bagunceira, a inteligente

Você já percebeu como rótulo é uma coisa que gruda na embalagem? Haja esponja, água quente e detergente para desgrudar, né?

Quando falamos de rótulos no sentido figurado, isso também é verdade. Aquilo que repetidamente falam sobre nós vai grudando em quem somos. E aí, para desgrudar, podem ser necessários anos de terapia.

“Fulano é muito bonzinho; ciclano é bagunceiro; beltrana é linda e sensível; a irmã é muito inteligente”... Você já ouviu frases assim? Mesmo os rótulos considerados positivos são carregados de expectativas – e podem se tornar um peso para as crianças.

E os rótulos começam a ser grudados desde muito cedo. Ainda nos primeiros dias, familiares perguntam se o bebê é “bonzinho” - o que, nessa idade, significa basicamente dormir a noite inteira. 

Se for o caso dele, cresce ouvindo esse mesmo elogio ao quanto ele atende às expectativas dos adultos ou, mais complicado, com queixas de “você era tão bonzinho antes, por que não é mais?”. Agora, se não é o tal bebê bonzinho, surgem as comparações “sua irmã ou sua prima são tão bem comportados…” ou o julgamento dos pais, como se tivessem fazendo algo errado na educação.

Acontece que somos muito complexos para sermos classificados com uma só etiqueta.

A infância e a adolescência são períodos de descoberta e formação de identidade e personalidade. É preciso abrir espaço e dar liberdade para que as crianças manifestem tudo o que são para além dos rótulos. 

Nesse sentido, o documentário “Repense o elogio”, produzido pela Maria Farinha Filmes e lançado em 2017, traz reflexões importantes. Quando a criança percebe que é mais aceita quando é “boazinha” ou “delicada”, isso pode se tornar um padrão de comportamento ao longo da vida. E ela deixa de viver outras características (menos elogiadas) da sua personalidade. 

Assim, para continuar agradando, ela passa a questionar ou se posicionar menos, deixando suas vontades e opiniões abafadas. Esse silenciamento acontece – e se reproduz – inconscientemente. Nenhum pai ou mãe faz de propósito, mas as palavras exercem esse poder.

Criança grita, pula, chora, resmunga, reage. Isso faz parte do aprendizado dela para se posicionar na vida. Cabe a nós, pais, adultos, respirar fundo (às vezes muito fundo) e saber lidar com esses momentos. 

Como libertar a criança do rótulo de boazinha?

“Mas e quando a criança já é muito boazinha, isso é ruim?”, você pode estar se perguntando. E a resposta é: claro que não! 

Mas é importante lembrar que nenhuma criança se limita a uma só caixinha. Afinal, somos todos seres complexos! Por isso, o conselho de especialistas é ter cuidado com as palavras, para não reforçar apenas um aspecto (positivo ou negativo) dos nossos filhos.

A terapeuta Elisama Santos destaca a importância de ensinar ou permitir que a criança diga não, quando não concorda com algo. Isso a ajuda a se posicionar também no relacionamento com outras crianças na escola e mesmo com outros adultos. O efeito vem também a longo prazo, trazendo mais segurança nas relações futuras – profissionais e afetivas.

  • Ensinar a dizer não: “Ensine a criança a dizer ‘por favor’, ‘obrigado’, ‘com licença’, ‘bom dia’ e ‘NÃO’”, aconselha Elisama. Às vezes o não da criança vai incomodar a gente, vai nos tirar da zona de conforto, mas é importante que a criança entenda que pode dar sua opinião. Assim, aos poucos, ela aprende a construir alternativas.
  • Dar autonomia para a criança sempre que possível: em vez de entregar tudo pronto, deixe que ela escolha a própria roupa, o lanche, o brinquedo, o horário do banho. Isso ajuda a criança a identificar suas vontades e necessidades mais autênticas.
  • Incentivar a criança a se expressar, mesmo quando ela não puder ser atendida. Algumas se calam porque já sabem que vão chatear os pais. Lembre a criança de expressar o que quer e o que não quer, mesmo que ela saiba que vai contra a vontade dos adultos. Nós podemos lidar com isso!

Lembre: o contrário de bonzinho não é malvado ou mal-educado. Nem há problema em também ser “bonzinho” ou calmo. Só precisamos lembrar que ninguém é uma coisa só o tempo inteiro e respeitar a multiplicidade que cada pessoa carrega em si. 

Com esses cuidados, a criança consegue se entender melhor e aprende a argumentar e se posicionar. Isso também é importante para os pais, que vão conhecer melhor os filhos em sua totalidade e vão atentar mais para não passar por cima deles o tempo todo. Assim, crescem todos juntos.

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