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Para mães e pais 
em fase de crescimento.

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Ninhos do Brasil + Carochinha Editora: Ninhos do Brasil se uniu à Carochinha Editora, selecionando histórias que auxiliam nas questões enfrentadas em diferentes fases. Confira!

Minhas filhas não seguraram meu casamento: que bom!

Samara Felippo SF
seg, 27/06/2022 - 10:00
A foto mostra Samara Felippo e suas filhas sorrindo e segurando as mãos uma das outras de maneira afetiva e maternal

A partir do momento em que uma mulher se pega pensando se tem coragem ou não de pedir o fim do casamento, algo já a revirou por dentro. 

Quando ela começa a questionar se é o caso de separar-se com filhos ou de colocar os filhos como uma moeda de troca para que aquela relação não venha a falir, é porque já existe algo exponencialmente errado ali. Até porque sempre achamos que a culpa pelo término é invariavelmente nossa.

Filho jamais segurou casamento, mas, no fundo, algumas gerações passadas acreditavam de verdade que era preciso manter o casamento aparente e “feliz”, passando por cima de toda e qualquer violência, para não “traumatizar” os filhos. Ou, até mesmo, para tentar não carregar a culpa por essa falência.

Manter o casamento pelos filhos: por que acontece? 

Essa decisão pode ser tomada por muitos motivos, muito mais profundos e cuja dor eu, do alto de todo meu privilégio, jamais conseguirei saber – ameaças físicas, emocionais, psicológicas, o medo do desconhecido, de não ter pra onde ir, a dependência financeira e emocional.

Mesmo que uma mulher seja dona de seu próprio negócio e independente financeiramente, se ela for dependente emocionalmente, ainda assim permanecerá num relacionamento tóxico e abusivo, que inclusive acaba respingando nos filhos. 

Acredito que ainda hoje muitas mulheres continuem reproduzindo esse comportamento. “Vou segurar aqui toda a barra, eu preciso dar conta de tudo, sou uma mãe forte e meus filhos verão isso”. 

Não! Eles verão uma mulher exausta, estressada, triste, renunciando seus sonhos, sua liberdade, sua identidade e profissão na maioria das vezes. Eu posso dizer que, no meu mais profundo íntimo, talvez também tenha reproduzido esse pensamento.

O casamento dos sonhos: mas sonhos de quem?

Não me casei, digo, não no sentido tradicional, aquele que minha mãe sonhou e metade das meninas crescem sendo ensinadas a sonhar. Lembro nitidamente de crescer com minha mãe orgulhosa ao ver e me mostrar o álbum do casamento dela com meu pai. E, realmente, era lindo! Um conto de fadas. Mas, mesmo assim, ela dizia que estava à frente de seu tempo por ter enfrentado o meu avô para casar, pois ele não aceitava meu pai.

Falava também do figurino dela, que era “transgressor”, e de certa forma ela até tinha razão; ela entrou na igreja usando um vestido branco (óbvio, é a obediência social em mostrar a mulher virgem, santa, pura e casta), só que o vestido tinha um capuz. 

Ela entrou de braço dado com seu pai, mesmo contra o gosto dele, segurando um “cetro” – não sei bem definir, era um bastão enrolado com fitas de cetim brancas – e não o clássico buquê. Ela estava linda, autêntica, talvez da forma que ela tivesse escolhido e, sim, quebrando alguns padrões, mas estava casando tradicionalmente como a igreja ensina. Eu me pergunto: Por que eu não fui mordida por essa tradicionalidade? Ou fui?

Talvez eu responda que cheguei até a sonhar; talvez tenha até pensado em casar igualzinho à minha mãe e continuar o sonho mantendo um casamento “feliz” às custas de qualquer coisa, “até que a morte nos separe”, que foi o que aconteceu na história dela – o modo como fui doutrinada não só pelo exemplo que tinha em casa mas também por toda uma sociedade.

Talvez, eu quisesse ser a “transgressora”, sem sapatos, na praia ao invés da igreja, mesmo assim de branco e para sempre. Acontece que tudo que eu idealizei ruiu. E aí entramos na separação, divórcio, desquite, chame como quiser.

Na separação, pensei em mim. Por que não?

O que será da mulher separada com um filho? E com dois, três, quatro filhos?
Como lidar com algo que não nos foi ensinado? Muitas vozes vêm à cabeça: “Mas e a família que você construiu e tanto sonhou?”, “Por que não dar mais uma chance?”, “O que você fez que não deu certo?”, “A culpa é sua por não tentar!”, “E seus filhos, o que vão pensar? Como vão crescer?”, ”E sua família?”, “Você vai namorar/casar de novo?”, ”Finge que não viu”, “Finge que não sabe!!”, “Finge que você ainda aguenta, pelos seus filhos”.

Essas vozes me perturbaram durante anos, mas eu fui deletando uma por uma à medida que a vida foi me mostrando e ensinando o quanto eu merecia ser feliz, e o principal: eu me deixei enxergar. Parei de pensar no que eu não queria e passei a dizer NÃO para tudo aquilo que eu sabia que não fazia mais sentido pra mim, que não queria mais levar adiante. Que não me deixava ir em busca da minha liberdade.

Eu, sinceramente, só pensei em mim nesse momento da separação e foi a melhor coisa que fiz. E, sim, por essas escolhas você irá ser muito julgada, chamada de egoísta, de péssima mãe, egocêntrica. Mas a verdade é que, se fizer outras escolhas, será julgada igualmente. Ou seja, a conta nunca fecha.

Preste atenção! Eu pretendia falar isso lá no final do texto, mas volto a repetir mais pra frente: Mães felizes criam filhos felizes! Que vire um mantra. Também acredito que nenhuma mulher se una a um parceiro pensando em se separar, mas a vida tem dessas coisas. Como dizia Cássia Eller: “O pra sempre, sempre acaba”.

A história de um casamento e seu fim

Como disse, não me casei na igreja, de branco, mas me uni a alguém. Me uni para formar a tão sonhada família que ruiu. Aquilo que te fazem acreditar que seja nosso objetivo mais sublime na Terra. Aquilo que vai te fazer a mulher mais realizada e feliz do planeta.

Aos 29 anos, me juntei a alguém com quem acreditei que viveria pro resto da vida. Sim, eu romantizava isso. Dois meses depois, engravidei. Assustou? Pois é, quem conhece alguém em dois meses? Mas meu relógio biológico bateu, a sociedade também cobrava filhos pela minha idade e minha história foi assim – e ela me fez entender como somos induzidas a depender de um amor que dê filhos e te nutra pra vida toda.

Foram alguns anos achando que seria pra sempre, afinal, éramos uma família, e não me foi ensinado que famílias se desfazem, principalmente da forma que a minha se desfez, já que minha mãe só se separou do meu pai porque ele faleceu. Não vou entrar em detalhes sobre a minha separação, mas foi traumático, dolorido e nada amigável. Fui ao fundo do poço. Já contei algumas vezes que me separei em pleno puerpério da minha filha caçula. Se separar não é fácil, ninguém disse que era.

Há aquelas que se separam na gravidez, aquelas que se separam no puerpério, como no meu caso, aquelas que se separam depois de alguns bons anos dos filhos crescidos e, independente de quantos filhos, também existem aquelas que não conseguem se separar. 

“Ah, mas quando é menos traumático?” Não sou psicóloga, terapeuta, psicanalista. Não estou aqui ditando regras, só dividindo e somando com vocês, mas cada uma vai descobrir no seu tempo, na sua agonia e na hora de ouvir o grito do seu amor-próprio.

Depois do fim do casamento: lições de amor-próprio 

Antes de mais nada, quero deixar bem claro que não sou contra casamentos, só não compactuo com esse casamento da igreja e de papel assinado. Mas respeito cada crença e vontade. Inclusive, sou "juntada" com uma pessoa há 8 anos.

Conheci o Elidio 6 meses depois que me separei. Foi rápido? Foi. Mas não me envolvi assim para tapar nenhum buraco ou arrumar um “pai” para as minhas filhas: elas já têm um pai! Ele foi minha escolha consciente e faz parte do crescimento delas. Olhava pra ele e pensava: “Ele respeita minhas escolhas?”, “Ele elogia minhas conquistas?”, “Ele me elogia?”. E todas as respostas condiziam com o que eu queria pro meu futuro, até porque minhas escolhas de hoje afetarão o futuro das minhas filhas.

Existe vida pós-separação com filhos. É uma morte e um renascimento nosso mesmo. Se eu puder dar um conselho: se cerque de mulheres fortes, leia, se informe, se ocupe. Fui em busca da minha melhor versão para minhas filhas, para que elas sejam mulheres melhores que eu. 

No fundo, eu sabia que conseguiria conduzir todo o processo com elas. Aprendi a aceitar e pedir ajuda. Me vulnerabilizar foi um caminho importante para o meu crescimento e o delas. Minhas filhas passaram comigo por todo o “luto”. Eu tentava amamentar a Lara e não conseguia. Com a Alicia, aos 4 anos na época, eu ia conversando, amando, acolhendo seus questionamentos, suas dores. 

Uma mãe que escolheu ser livre e feliz

Hoje, elas somente colhem uma mãe que escolheu ser livre e feliz para que elas possam também acreditar na felicidade delas e para que saibam que podem e devem ter autonomia pelas suas escolhas. E, como eu digo na minha peça teatral, “Mulheres que Nascem com os filhos”, num texto em que escrevi sobre minhas sombras e dores da maternidade: “Eu quero que minhas filhas me vejam realizando os meus sonhos pra que elas se sintam capazes de realizar os delas também  e que elas cresçam sem precisar da aprovação de ninguém para serem felizes.”

Se você passou por um processo de separação, seja ele qual for, desejo que, nessa rede de carinho, você se sinta abraçada, acolhida e que se sinta capaz de ser livre.

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