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em fase de crescimento.

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Ninhos do Brasil + Carochinha Editora: Ninhos do Brasil se uniu à Carochinha Editora, selecionando histórias que auxiliam nas questões enfrentadas em diferentes fases. Confira!

Namoro infantil: pode ou não pode?

Ninhos do Brasil NB
qua, 03/08/2022 - 10:00
 Imagem de um menino e uma menina de mãos dadas se olhando. O menino usa uma boina e uma camisa listrada laranja e branco e a menina está de cabelo solto, usando um macacão escuro e sorrindo

Crianças não namoram, nós sabemos. Mas isso não significa que elas não se interessem, tenham curiosidade ou até fantasias infantis sobre o assunto. Como então lidar com o “namoro infantil”? Ou com aquela fase em que as crianças começam a falar sobre o tema?

Dudu*, de 7 anos, anuncia no jantar:
Mãe, agora eu tenho uma crush na aula!
A mãe quase engasga:
O quê?
– Ah, é? Você está namorando? – interrompe a irmã, de 11.
– Não, né. Criança não namora, é minha crush – ele responde.
– O que é crush? – pergunta o pai.
– Crush é uma pessoa que a gente gosta muito. Em primeiro lugar pra mim está a Nina (colega) e a Chanel (que é a gata da família). Em segundo lugar, a mamãe e o papai. E em terceiro lugar, a mana. E a vovó também!

Mas o que é um namoro infantil?

A mãe de Dudu, Mariana*, se derrete e se diverte: "A coisa mais querida é acompanhar a descoberta de um sentimento novo”.

De fato, o namoro infantil pode até ser um tipo de sentimento novo, misturado aos que já existem – como o amor que sentem pelos pais e o complexo de Édipo

A criança observa o mundo dos pais e tem uma ligação de amor com eles. Tem desejo de ser amada exclusivamente pelos pais. Gradativamente, ao longo da infância, ela vai descobrindo que esse amor vai ser transformado, que não vai ter os pais sempre como seus objetos amorosos”, explica Júlia Durand, psicanalista e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A ideia inicial de um namoro ou de uma paixão infantil é um princípio de renúncia dessa exclusividade dos pais. Aos poucos, a criança passa a entender que terá no futuro outros objetos de amor. Mas, calma, isso é no futuro.

O namoro das crianças ainda não é um namoro como o de adolescentes ou adultos. O namoro infantil é, sobretudo, uma brincadeira de criança. E é assim que precisa ser encarado.

É normal uma criança namorar?

Criança não namora, mas eventualmente brinca de reproduzir as falas dos adultos.

A criança fica encantada com o mundo dos adultos. Ela brinca de trabalhar, de dirigir. Enquanto o futuro e a vida adulta não vêm, ela brinca de fazer como os adultos: brinca de médico, de polícia, de professor. Eles se satisfazem com aquilo que ainda não podem e está distante para eles.

O namoro de criança entra nesse sentido: é uma possibilidade de fazer de conta que já é grande, fazer de conta que já tem maturidade para namorar. Mas está no campo da brincadeira” – tranquiliza a Dra. Durand.

Da mesma forma que algumas podem querer brincar disso, outras vão ter completa aversão à ideia de namoro. Meninas fugindo de meninos, e vice-versa. Nada disso tem a ver com orientação afetiva. Os dois comportamentos são normais e não precisam ser superestimados.

Namoro infantil: pode ou não pode?

Segundo a Dra. Durand, não há necessidade de repreender esse tipo de fantasia. 

Entender esse 'namoro' como brincadeira não é desqualificar ou desvalorizar. É entender como um faz de conta, como uma vontade de experimentar aquilo que ainda não é acessível para eles” – explica. 

Por outro lado, não há razão para incentivar ou levar a sério, como se fosse um namoro maduro. As relações entre as crianças são muito afetivas e os laços de amizade são muito fortes. 

Mas são isso: afeto e amizade. Por isso, nomear corretamente os sentimentos também é importante para não gerar confusões de papéis. 

Segurando a ansiedade dos adultos sobre o namoro infantil

Quando duas crianças ficam muito amigas, especialmente quando são do sexo oposto, é comum a própria sociedade começar a tratar como “namoradinhos” – ou dar um reforço muito positivo quando a brincadeira parte deles. 

Muitas vezes, é uma ansiedade muito maior dos adultos que das crianças, como se os pais quisessem se certificar da orientação afetivo-sexual dos filhos. Porém, isso só se evidencia após a puberdade, na adolescência. Antes disso, tudo é brincadeira.

Respeitar as fases é fundamental para desenvolver o potencial máximo da criança. Uma criança não tem condições emocionais de lidar com um namoro propriamente dito e toda a responsabilidade afetiva que ele carrega. Estimular isso é correr o risco de uma erotização precoce e mesmo de frustrações emocionais desproporcionais ao nível de maturidade.

Os limites da brincadeira

Além de nomear, é importante deixar claros os limites da brincadeira: pode brincar junto, ir na casa, mas beijar na boca ainda não. 

Na casa do Luís Fernando* e da Priscila* foi assim. Quando a filha Maísa* ainda tinha 5 anos, gostava de andar de mãos dadas com um coleguinha e às vezes dizia que eram namorados. A família nunca sentiu necessidade de repreender nem de incentivar, entendendo como amizade apenas.

Quando a menina começou a demonstrar curiosidade pelo corpo, se tocar e tentar tocar o corpo dos amigos da família, os pais conversaram abertamente. “Explicamos que o corpo é algo íntimo, que, mesmo que ela achasse gostoso, era importante fazer isso sozinha em um local reservado”, lembra Priscila.

Qual é a idade mínima para começar a namorar?

O namoro e o interesse afetivo-sexual são resultados de modificações hormonais no corpo e na psicologia de adolescentes. Não existe uma idade exata para acontecer. Cada família, quando tem abertura para conversar sobre sentimentos e sexualidade, vai entender o momento.

A Maísa já estava com 14 anos quando o assunto ficou mais sério. Foi quando anunciou que estava em namoro virtual, com um menino que morava em outro estado. Os pais fizeram questão de se certificar que, do outro lado, estava mesmo alguém desta faixa etária – falaram até com a mãe do menino. 

Também alertaram a menina sobre nudes: “Eu falo claramente, ‘se for mandar, não mostra o rosto e nada que te identifique’. Ela diz que não manda, mas eu prefiro avisar sobre os perigos”, explica Luís Fernando. 

Esse namoro não evoluiu, mas no ano seguinte Maísa apresentou um namoradinho novo. Quando contou aos pais que encontraria o namorado na praia (viajaria com a família da melhor amiga), o pai não teve dúvidas: “Entreguei a ela um pacote de camisinhas para caso fizessem algo. Eles me ligaram da praia dizendo que estavam fazendo balões com as camisinhas, porque não iam fazer mais nada”, ri o pai ao mesmo tempo em que se orgulha da relação de confiança, liberdade e responsabilidade conquistada em família. 

Como lidar com o namoro infantil?

Na parentalidade, não existe resposta pronta ou única. Quando o assunto namoro surge antes da puberdade, enquanto curiosidade, é importante agir e responder às perguntas com naturalidade. Sem repreender (para não gerar ainda mais interesse), nem estimular demais (pois as crianças percebem quando há uma expectativa dos pais).

A relação de abertura e a clareza dos limites facilita para que a relação de confiança perdure na chegada da adolescência. Mesmo que optem por não relatar tudo (eles têm a privacidade deles, lembra?), eles sabem que podem contar com a família. 

Grupo de namoro infantil online?

Assim como os adultos, adolescentes estão cada vez mais começando relacionamentos de amizade e mesmo românticos de forma virtual. Grupos de chat, mídias sociais e até videogame online estão gerando novas conexões. 

A notícia pode soar desesperadora, pois sabemos que existem pessoas mal-intencionadas em todos os lugares. Mas calma: mais que censurar, é importante que os pais estejam atentos e abertos para conversar.

Como é impossível monitorar tudo o tempo todo, é importante garantir que a criança tenha pensamento crítico para um comportamento seguro também na esfera online.

  • Converse sobre riscos e formas de se proteger online. Isso inclui não compartilhar local ou dados pessoais e proteger a identidade – como os pais de Maísa a orientaram.
  • Demonstre interesse em saber mais e/ou pesquisar sobre a pessoa com quem ela está falando – e, de preferência, fale também com os pais da outra criança ou adolescente.
  • Não envergonhe ou culpe o adolescente caso descubra algo inadequado. Apenas reforce a importância de ficar atento – salve prints e denuncie junto às plataformas e às autoridades.

*Os nomes das crianças e dos pais foram modificados para não expor a intimidade das crianças. 

A realidade virtual está cada vez mais presente nas nossas vidas. Por isso, é importante conhecer mecanismos de controle parental, mas, sobretudo, de educação digital. 

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