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Mastigação e Recusa Alimentar: qual é a relação?

Carol Albuquerque CA
sex, 22/07/2022 - 10:00
Foto de uma menina comendo verduras

Você provavelmente já ouviu falar da importância da mastigação para a digestão e melhor absorção de nutrientes, certo?

Contudo, pouco se ouve falar sobre a influência da mastigação na aceitação dos
alimentos. 

A recusa alimentar é um tema que angustia muitas famílias, e estudos recentes mostram dados preocupantes, em que aproximadamente 50% das crianças têm algum tipo de dificuldade alimentar no decorrer da infância. 

Que tal ampliar o olhar sobre a alimentação das suas crianças?

Como a mastigação influencia na recusa alimentar

É na introdução alimentar que o bebê passa a ter suas primeiras experiências sensoriais proporcionadas pelas comidas sólidas. Até então, o único mantimento conhecido era o leite (que tem sabor adocicado e consistência líquida e exige o movimento de sucção para a alimentação). 

Os alimentos sólidos exigem diferentes habilidades de mastigação. Por isso, a exposição a maior variedade de alimentos possível nessa fase é tão importante
(além dos nutrientes, claro!).

Algumas famílias sentem-se muito inseguras pelo fato de o bebê ainda não ter os
dentinhos.

O que elas não sabem é que, apesar de ter poucos ou nenhum dente, a gengiva já está pronta para receber comidas sólidas. Eles não só podem, como devem ser oferecidos.

Você já parou para pensar como são diferentes as texturas durante a alimentação? Batata-doce e cenoura, chuchu e mandioca... é só espetá-los com um garfo para perceber as diferenças.

São diversas experiências sensoriais ao mastigar folhas cozidas bem picadinhas, leguminosas e carnes! 

Imagine agora que todo esse novo universo de possibilidades proporciona ao bebê os primeiros registros sensoriais na cavidade oral.

Por que a criança cospe o alimento?

Ao levar os alimentos à boca, a criança pode mastigar, chupar ou mesmo cuspir. E tudo isso deve ser estimulado, pois faz parte do processo de aprendizado, fundamental à essa fase de desenvolvimento.

Acontece que, ao se deparar com essa cena, as famílias frequentemente entendem que a criança não gosta de determinados alimentos e os excluem do cardápio. 

Em outros casos, a família entende que o bebê prefere as refeições mais pastosas. Com isso, oferece somente sopinhas batidas e purês, diminuindo a exposição da criança a diferentes texturas – importantes para o exercício de novas habilidades de mastigação.

Estimular a mastigação: check!

Por volta de 1 aninho de idade é esperado que a refeição da criança seja o mais
próximo possível da refeição da família.

Ou seja, tivemos seis meses para evoluir as texturas de forma gradativa a fim de que o bebê aprenda a mastigar e, dessa forma, se sinta confortável com diferentes alimentos na boca. 

Ainda assim, é comum receber pacientes por volta dessa idade sem essa evolução na alimentação e apresentando alguma queixa de recusa alimentar.

E isso pode ir se agravando, especialmente quando a criança continua recebendo uma nutrição sem variedade de texturas e, muitas vezes, bem restrita.

Por exemplo, uma dieta sem grupos de alimentos mais fibrosos, como as folhas cozidas, carnes, legumes e frutas em geral. Além disso, a recusa poder ser potencializada com comportamentos característicos das diferentes fases de crescimento e desenvolvimento.

O bebê está crescendo, desenvolvendo novas habilidades, começa a andar, interagir com brinquedos e, dessa forma, pode ter menos interesse em permanecer sentado na cadeirinha de alimentação durante as refeições.

Por volta dos 2 aninhos, a criança começa a ter mais autonomia, passa a escolher
roupas e calçados (as famosas fantasias de super-heróis e princesas), seus brinquedos favoritos… É claro que com a alimentação não costuma ser diferente.

Ou seja, chega a tão temida fase da seletividade. As famílias chegam no consultório aflitas, pois querem fazer com que seu bebê coma bem, muitas vezes insistindo ou forçando que a criança coma.

Assim, os momentos das refeições vão se tornando caóticos, e algumas famílias
se rendem, oferecendo qualquer coisa aos filhos e filhas, desde que eles comam.

Quando a criança recusa ou cospe alguns alimentos é comum os pais relatarem a
tentativa de escondê-los em algumas preparações: um clássico é o purê (bem aceito) com a carne moída bem escondidinha. 

No entanto, quando a criança percebe aquela minúscula carninha moída na boca, a cospe imediatamente.

Acontece que, para a aceitação de todos os grupos de alimentos, são necessários diferentes movimentos de mastigação. Quando a criança não teve a exposição repetida a eles, pode recusá-los por não saber muito bem o que fazer com aquela textura na boca. 

As fibras, por exemplo, exigem o movimento de lateralização da língua, então frequentemente são recusados. 

São comuns relatos de casos em que a criança chupa a carne e depois a cospe ou aceita o suco, mas não a fruta. Fica evidente que o problema não é o sabor, mas sim a sua textura.

Recusa alimentar: entender para ajudar

Quando a criança apresenta alguma dificuldade alimentar, é comum as famílias
escutarem que pode ser frescura ou, ainda, que “deveriam deixar a criança passar fome” – e pouco se fala sobre a importância da mastigação. 

Quantas famílias sofrem nos momentos das refeições, travando uma verdadeira batalha para fazer seus bebês comerem melhor. Os momentos das refeições, que poderiam ser gostosos, muitas vezes passam a ser uma tortura para as famílias.

Mas, afinal, o que devo fazer para estimular a mastigação e evitar a seletividade alimentar?

O primeiro ponto é ter muita paciência e entender que o mais importante para a criança é realmente a experiência com o alimento. Estudos mostram que, para dizer que uma criança não gosta de determinado alimento, ele deve ser oferecido mais de 20 vezes em diferentes situações e formas de preparo (e com isso, claro, as texturas). Nesse sentido, gosto de dar o exemplo da cenoura: “Ah mas meu filho não gosta de cenoura!”.

Então, vamos lá para algumas possibilidades para inspirar você:

Purê de cenoura, sopa com cenoura, bolo de cenoura sem açúcar, cenoura em palitos, ralada, chips, misturada no ovinho mexido, na panquequinha… Essas são só algumas, entre tantas formas de estimular o consumo. 
É claro que a forma como os alimentos são oferecidos faz toda a diferença, portanto, jamais force ou insista para que a criança coma. Como já falei aqui, às vezes, a recusa se dá não por causa do sabor, mas da textura – e, para que a ela possa de fato exercitar a habilidade de mastigação, isso deve ser feito de forma tranquila, prazerosa e sempre respeitando o tempo dela.

Portanto, o primeiro passo para a exposição repetida aos alimentos é manter a neutralidade em caso de recusa, pois, antes de comer de fato, a criança precisa passar por alguns passos:

Tolerar
Tocar
Cheirar
Levar à boca e possivelmente cuspir
Experimentar
Para finalmente comer.

Esses passos podem não acontecer em uma única exposição. Aliás, essa não deve ser a expectativa. 
Ufa, quanta informação, não é mesmo? 

Por isso, o processo de investigação das possíveis causas da recusa alimentar é
imprescindível para ajudar as crianças. 

Quando a questão está relacionada à mastigação, é papel do nutricionista materno-infantil garantir o cardápio com todos os grupos de alimentos e nutrientes necessários e adequados às habilidades da criança, de forma a proporcionar uma evolução gradual das texturas. 

O trabalho com equipe multidisciplinar é ainda mais efetivo e, portanto, fonoaudiólogos especialistas em dificuldades alimentares são fundamentais no
processo.

Se você se identificou com esse texto ou conhece alguma família que passa por uma situação parecida, não deixe de compartilhar essa informação.

Assim, cada vez mais famílias podem ter a orientação e acolhimento necessários para lidar com a alimentação das crianças e, com isso, levar mais saúde de forma gostosa e prazerosa. Contem comigo!

Com carinho :)

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